sábado, 19 de maio de 2012

O homem cordial e a construção da identidade brasileira


"A inimizade pode ser tão cordial quanto a amizade." (S. B. de Holanda)
O homem Cordial: movido pelo coração 


"Nascido em São Paulo, em 1902, ...Sérgio Buarque mudou-se para o Rio de Janeiro onde desenvolveu grande parte de suas atividades intelectuais. (...) Sérgio foi profundamente marcado pelo historicismo alemão, pela sociologia weberiana, pela antropologia, etnologia e filosofia da história..." (ARRUDA; TENGARRINHA). Em sua obra Raízes do Brasil, o povo brasileiro é tema central. Seu foco, "identificar os obstáculos que entravam a modernização política e econômica-social-mental do país" (REIS). 

Ele quer cortar os laços com as raízes ibéricas e ver surgir o brasileiro. "Seu método viaja num sobrevoo de oposições e contrastes, que trava o dogmatismo e dispara o jogo dialético." (SOUZA) O Homem Cordial foi um dos conceito criados por Sérgio Buarque que ajudaram nessa construção identitária do povo brasileiro.

Santiago ao analisar a figura do "Homem Cordial" como elemento do caráter nacional brasileiro e contribuição brasileira para civilização explica o significado da cordialidade. A cordialidade é ambivalente, cheia de polidez, marcada pelo desleixo e o disfarce, contudo é um conceito difuso não podendo ser abarcado. Se encaixa no conceito de Disseminação:"Difusão ou propagação dos sentidos num texto, não sendo possível agrupá-los num só nem exercer qualquer espécie de controle sobre todos os sentidos encontrados ou por encontrar.(E-Dicionário de termos literários)"

"A cordialidade pode expressar tanto a amizade quanto a inimizade, tanto a concórdia como a discórdia" (SANTIAGO), a meta do brasileiro é buscar a harmonia entre os opostos, ou seja, ser cordial. Entre a sensibilidade e a sensualidade duela com geometria e a razão. Caracterizada pela impropriedade a democracia brasileira (cordial) harmoniza as classes sociais (fidalgos e plebeus).

Como Máscara, a cordialidade preserva o familiar em meio a sociedade em modernização, (...) "é o modo como a autenticidade do homem e da cultura brasileira e os verdadeiros anseios do brasileiro puderam e podem ser preservados... é o retorno do familiar num mundo que o rejeita, é o retorno do íntimo e privado, valores que estão sendo recalcados pela razão e o direito." (SANTIAGO)

Exemplos de cordialidade dados por Sérgio Buarque:

- No plano linguístico

O uso do vocabulário com pessoas íntimas no grau diminutivo. (inho, inha)

A repetição fônica. (Vovó, Dudu, Jajá, Didi, Dedé, Titi)

A Omissão do nome de família no tratamento social. Em regra se usa o nome individual, de batismo, apelido.

Sérgio Buarque usou de muita maestria ao criar conceitos como a cordialidade, mesmo nos anos 30, época em que era comum uma história elitista. Buarque, assim como seu predecessor Capistrano de Abreu inaugura uma história voltada para o povo, para entender onde acabava os laços com Portugal e começava o Brasil.

*fim*


Fontes:

ARRUDA, José Jobson; TENGARRINHA, José Manuel. (Org.)A Pré-história da produção histórica no Brasil (1838-1930) In: Historiografia luso-brasileira contemporânea. SP, EDUSC, 1999.

REIS, José Carlos. As Identidades do Brasil. De Varnhagen a FHC. 8ª Edição, Fundação Getúlio Vargas, RJ, 2006.

SANTIAGO, Silviano. O desleixo e a cordialidade. In: _______. As raízes e o labirinto da América Latina. RJ, Rocco, 2006.

SOUZA, Antônio Cândido de Mello. Prefácio da primeira edição de Raízes do Brasil. RJ, ed. José Olympio, 1933.

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